quarta-feira, 30 de maio de 2018

RAÇA IZABELENSE


       Em um certo dia primaveril, aquele venerando e sábio observador do passado izabelense, juntou seus mais de dez netos e passou a lhes contar  as boas e más lembranças que vivenciou  nesta terra. Disse-lhes ter conhecido Valentim José Ferreira e sua companheira Izabel, sendo testemunho de seus empenhos que contribuíram assim para transformar alguns lotes da Colônia Nossa Senhora de Benevides  em um povoado de futuro e que mais tarde daria origem ao nosso município. Relatou que conheceu todos os gestores, desde Noé de Carvalho que fora nomeado em 1934 e os que o sucederam. Alguns com com certo discernimento administrativo, porém a maioria apenas limitou-se à costumeira rotina de conservar as obras já realizadas. Resumia ele que o povoado Sta. Izabel de então, era um grande núcleo colonial que sobreviveu por muito anos do plantio da mandioca, do arroz, milho,algodão,feijão, ervas e essências da mata, da extração madeireira e de alguns engenhos que produziam além do açúcar-moreno, aguardente e mel . Ressaltou que a  Estrada de Ferro de Bragança muito concorreu para o desenvolvimento da região, mas que fora impensadamente extinta pela Revolução de 64. Quando jovem admirava os importantes prédios como: o monumental Orfanato Antonio Lemos, o majestoso Grupo Escolar Sílvio Nascimento, a requintada (primeira) Estação Ferroviária, o extraordinário Mercado Municipal, a bela Igreja Matriz e sua praça no entorno, a  inesquecível Praça da Bandeira, o chalé do então governador João Coelho, o Retiro de Moema, do intendente (prefeito) de Belém, Antonio Lemos;o Viaduto Tibiriçá; o surgimento do Clube Dramático Recreativo e Beneficente Thalia fundado em 1914, que reunia a nata da sociedade, realizando bailes monumentais e caprichosamente organizados. Dez anos depois (1924), assistiu a fundação do Atlético Clube Izabelense, que constituiu-se o maior orgulho do esporte de nossa terra até volta dos anos 90; as inúmeras chácaras de pessoas oriundas da capital que se instalaram às margens de nossos (ainda) saudáveis e belos igarapés. Porém como algo extremamente decepcionante e triste, assistiu à partir de 1950, a injustificável estagnação do município, que foi vítima de uma politicalha perversa,  fato que perdurou durante cerca de três décadas, que lhe tirou toda possibilidade de se desenvolver, concorrendo grandemente até hoje, para o seu retroagimento. Ele lembrava também, que mesmo com a paralisação do município, ainda tivemos a participação de empresários como Waldomiro Coelho, que aqui instalou uma fábrica de refrigerantes (Guaraná Extra-Alegria) e construiu o moderno Cine Palace, com suas extraordinárias exibições de filmes recentes. Recordou as festas tradicionais de Fins de Ano e Natal no grande Mercado da cidade, as Missas do Galo à meia-noite na Matriz; a Quadra Junina que era festejada com extremo bom gosto e organização pelas religiosas do Colégio Antônio Lemos, com suas animadas quermesses e peças teatrais; o nosso Círio que saía do Retiro de Moema, o Círio do Caraparu naquela bucólica vila; a festa em homenagem a São José no mês de março, patrocinada pela família  Darlindo Correa, no Jurunas, com a procissão do mastro, pelas principais ruas da cidade; o movimentado arraial de Sta. Izabel e ainda lhes contou sobre o soerguimento do Santo Cruzeiro, com cerca de 15 m de altura, marco das Santas Missões, pelos padres Redentoristas em 1956; esclareceu-lhes sobre os primeiros emigrantes orientais que aqui chegaram ainda (nos anos 30) e que muito contribuíram na expansão e no desenvolvimento econômico e de nossa terra, principalmente com o extenso plantio da pimenta-do-reino. Também acompanhou a instalação da primeira penitenciária no município e que depois permitiu-se que a Vila de Americano se transformasse em um aglomerados de presídios, trazendo apenas o desassossego e a constante preocupação a todos nós izabelenses, por pura inabilidade e irreflexão de nossos políticos. Mesmo assim, lembrou dos grandes vultos que muito contribuíram com a saúde, com a educação, com a política e com o esporte, alguns desses eram nativos e outros que aqui chegaram e adotaram esta terra como o seu verdadeiro berço. 
     Tudo isto estava contido na explêndida memória  daquele simples cidadão, que teve o privilégio de viver por dez décadas e que aqui constituíra sua maravilhosa família, família esta, que faz parte hoje deste imenso grupo de miscigenados cidadãos: brancos, negros, amarelos,  caboclos e índios -formando esta grande raça que é o povo izabelense, que não se curva às adversidades e continua lutando por seus sonhos, isto é, por um Sta. Izabel melhor para se viver.
    Após estes esclarecimentos, o venerando senhor respirou fundo, apoiou-se na bengala e concluiu:-Sinto lhes decepcionar, mas do jeito que nossa política ainda se arrasta, é difícil acreditar em melhores dias. Vocês jovens, são a única esperança.      

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